quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Desporto amador: Um reflexo do país

Portugal pode ser classificado como um país bipolarizado em duas grandes regiões: a Área Metropolitana de Lisboa e a Área Metropolitana do Porto. É aqui que se concentra grande parte da população portuguesa, sobretudo a mais jovem. Este facto tem um forte impacto na prática desportiva, com esta a ser particularmente relevante nas zonas mais habitadas.




Um clube de futebol pode ser um clube de amigos

Ao contrário dos atletas profissionais, os amadores não são pagos para jogarem. Fazem-no por amor ao desporto, à camisola do clube que vestem. Pedro Nogueira é um exemplo disso mesmo. Frequentou duas épocas completas nas escolinhas do Freamunde em infantis, desistindo a meio daquela que seria a terceira época no clube. Depois disso, voltou a jogar no primeiro ano como júnior no Ferreira, um clube vizinho, mas voltou a desistir no inicio da segunda temporada devido à entrada na universidade.

O agora universitário revela que foi uma experiência muito boa e guarda óptimas recordações. “Fiz grandes amigos nos dois clubes por onde passei e ainda hoje é o dia em que me arrependo desta experiência ter sido tão curta”, disse.

Pedro afirma que é difícil exprimir esta experiência e que só quem passa por esses momentos pode explicar. “Muitas vezes os amadores têm de se levantar cedo, por vezes de madrugada, e fazer grandes viagens para ir jogar futebol sem qualquer problema” recordou.

 No que diz respeito ao desporto profissional, na opinião de Pedro, o dinheiro fala mais alto, enquanto no amador “o espírito é muito mais familiar, há muito mais convívio e a grande paixão é ter a simples oportunidade de poder praticar desporto”. A finalizar, afirma que o ambiente do balneário é completamente incomparável com o profissional: “mais do que uma equipa, um clube amador é um grupo de amigos que se juntam para jogar futebol e depois ir para um café conviver”.

APEA: Um coro erudito num meio tradicional


A Associação de Professores e Educadores de Amares (APEA) surgiu em 1993. A sua finalidade é dar apoio à educação. Estes professores e educadores reúnem esforços para dinamizar pedagogicamente o concelho e fazer o intercâmbio entre Câmara de Amares, as escolas e universo pais/alunos do concelho.

Pouco tempo depois, no ano de 1995, quinze elementos desta associação juntaram-se, informalmente, para uma participação num festival de reis. O certame foi um sucesso e deixou nos quinze professores o “bichinho” pela música. Assim nasceu o coro da APEA, enquanto grupo  de reportório tradicional de canções portuguesas, com instrumentos típicos portugueses. Em 1996/97 foi aos poucos encaminhado para um coro à capella, abordando música de diferentes géneros musicais: desde a música tradicional do Cancioneiro Alberto Sampaio, música erudita, espirituais negros, canções portuguesas até à música religiosa.

APEA reunido
Foto por Diana Sousa

Inicialmente, o grupo coral da APEA era só composto por professores de Amares e alguns familiares. Contudo, outras pessoas, de outras classes profissionais, mostraram-se interessadas em participar e o coro cresceu. Aos poucos, os ensaios foram-se tornando regulares e os convites para concertos começaram a aparecer. Actualmente, o coro é composto por cerca de 30 elementos: 12 homens e 23 mulheres, com idades compreendidas entre os 14 e os 75 anos. A classe dos professores é a mais representada no grupo, mas temos também estudantes, engenheiros, comerciantes, etc. O coro ensaia uma vez por semana, durante cerca de uma hora e meia, na Escola EB23 de Amares. E em média, por ano, realiza cerca de seis actuações formais, mas também participa em missas de casamento e em festas litúrgicas.

A motivação para dar continuidade ao projecto passou pela orientação e dedicação da maestrina Filomena Araújo. Aliás, os elementos que hoje compõem o grupo coral da APEA não hesitam em afirmar que o sucesso do trabalho realizado se deve, em boa parte, à maestrina, presente desde a fundação do coro.

E quando perguntámos aos elementos o que melhor caracteriza o seu grupo coral as respostas foram muito semelhantes. E podem ser sintetizadas em poucas palavras: convívio, voluntariado e gosto pela música. Os ensaios e os diversos momentos informais (como jantares) em que o coro se junta são marcados pela boa disposição. Já os momentos de actuação em público surgem como a concretização da aprendizagem. São por isso levados bem a sério. «Um concerto é o momento de mostrar aquilo que realmente valemos», afirmou Beatriz Pires, professora do ensino básico e uma das fundadoras do grupo coral e da própria APEA. Mas estes momentos altos de actuação em público simbolizam também uma troca de experiências com outros coros, com outras pessoas.

APEA em actuação em Amares
Foto por Diana Sousa

Contudo, nem tudo é um mar de rosas, pois pertencer ao grupo coral da APEA tem um lado mais difícil: as reprimendas da maestrina Filomena antes dos concertos. Segundo os elementos do coro, a Mena, como lhe chamam, é exigente. E, nos breves momentos que antecedem a entrada em palco, dada a preocupação para que tudo corra bem, revela uma certa rispidez. 

Neste momento, o grupo coral dá grande visibilidade à APEA, enquanto a associação de professores e educadores de Amares legalizada em termos institucionais. As participações nos concertos de Natal, Ano Novo, Reis, 25 de Abril e Páscoa do concelho permitem ao coro colaborar na dinamização da comunidade amarense. Devido a isto, estabelecem-se algumas parcerias com a Câmara de Amares. Por exemplo, nas poucas vezes que foi necessário, a Câmara facultou transportes para as deslocações do grupo.

Ainda assim, o grupo coral da APEA partilha da opinião que o concelho amarense não dá o feedback necessário ao seu trabalho. Gisela Machado, de 29 anos, professora de físico-química, diz que em Amares não há uma cultura musical. “As pessoas daqui preferem concertinas e folclore. O erudito é estranho”, acrescenta Carolina Araújo, 18 anos, estudante. A maestrina, Mena, afirma mesmo que Amares é uma “terra árida” em relação ao trabalho do coro. E o seu colega António Almeida, engenheiro agrónomo, completa ao dizer que, no concelho, faltam bases culturais: é que não existem boas ofertas a nível musical, nem a devida divulgação das iniciativas culturais que ainda se vão realizando.

Perfil: Maestrina Filomena Araújo

Em 1995, para ensaiar as canções para um encontro de reis, os elementos da Associação de Professores e Educadores de Amares (APEA) pediram ajuda à professora de música Filomena Araújo. Filomena dava aulas de música na Escola EB23 do concelho e dirigia já alguns coros corais. Para além disso, ensinava guitarra clássica e piano a alguns jovens de Amares num pequeno atelier.
Os membros da APEA queriam dar voz a músicas tradicionais portuguesas. E, para esta primeira actuação em público em 1995, foi isso que aconteceu. Mas Filomena Araújo tinha outras ambições e deixou a sugestão de uma aposta num reportório mais diversificado e erudito. Os quinze elementos que, então, constituíam o coro da APEA aceitaram o desafio. “A partir daí, empenhei-me num projecto diferente daquilo que já existe no concelho e foi, assim, crescendo um coro com o qual me identifico pelo reportório que trabalhamos.”, deu conta Filomena.  E confessa que a paixão pela música coral a faz “mover montanhas”.
Foi assim que Filomena - ou Mena, como todos a tratam, - se ligou ao projecto musical da APEA, tornando-se maestrina do coro.
Maestrina Filomena Araújo
Foto por Diana Sousa

Encenadoras do grupo Máscaras reconhecem importância pedagógica do teatro escolar


Exigência das grandes peças é positiva para o desenvolvimento dos alunos

Maria José Dias e Celestina Gomes, responsáveis pela encenação do grupo de dramaturgia da Escola Secundária de Paços de Ferreira, consideram que o contacto com textos dramáticos beneficia o desempenho escolar. A escolha recorrente de obras clássicas e a fidelidade ao texto original aumentam a dificuldade da relação que os alunos estabelecem com as peças. Mas também são as razões que tornam o teatro escolar útil, até porque obrigam a uma aprendizagem específica.

“A partir do momento em que se trabalha com um clássico e em que o aluno entra em contacto com o texto tal como ele é, para Filosofia, para Matemática, para Português, para a vida, é sempre importante”, acredita Celestina Gomes, docente de Filosofia. Já Maria José Dias lecciona Português e Literatura Portuguesa. A professora reconhece que “a sensibilidade aos textos literários, a capacidade de expressão e a capacidade interpretativa são outras”. Para além disto, os alunos parecem aplicar-se mais nas disciplinas ligadas às línguas, apontou. Bárbara Machado é aluna do 12.º ano de Línguas e Literaturas e quer ser magistrada. Apesar de não pretender continuar os estudos em qualquer arte performativa, a jovem de 17 anos acredita que a experiência no teatro pode ser uma mais-valia. “Espero, um dia, utilizar a facilidade do meu discurso para ter um bom trabalho e ser uma boa profissional”, avançou.

As condições de ensaio do grupo Máscaras não são as melhores. Devido ao programa de renovação do Parque Escolar, a Escola Secundária de Paços de Ferreira encontra-se em obras. O antigo auditório foi substituído por estruturas pré-fabricadas. Ainda assim, hoje é melhor do que ontem, até porque as anteriores instalações apresentavam inúmeros problemas, desde um fraco isolamento acústico, à permeabilidade à entrada de água quando chovia. Contudo, como refere Maria José Dias, “a relação que se cria com os alunos é fantástica”. A professora já se encontra a sofrer por antecipação, pois grande parte dos membros do actual conjunto de actores está prestes a acabar o ensino secundário. “Vão sair da escola os alunos com quem já trabalhamos desde o sétimo ano”, recordou. No entanto, Celestina Gomes encontra um alento especial ao saber que os jovens actores procuram continuar no teatro amador, mesmo já estando na universidade. Joana Pacheco tem 19 anos e frequenta o segundo ano do mestrado integrado em Psicologia, na Universidade do Porto. Começou a carreira de actriz em part-time há três anos, no último dos 12 do ensino secundário. Ainda que haja dificuldade de compatibilizar os estudos com o teatro, a universitária pretende continuar ligada ao Máscaras. “Adquiri uma maior facilidade em me expressar”, apontou, o que constitui um incentivo para continuar.
Virgílio Castelo (ao centro) na estreia de O Avarento
Foto por Pedro Moura

Maria José Dias orgulha-se das opiniões que recebe dos alunos. A encenadora diz que os jovens actores encaram o teatro escolar como mais uma forma de diversão, convívio e descontracção. Também, “é uma espécie de multifunções em que eles podem pôr em prática algumas das potencialidades que têm e que não têm espaço de exposição noutro contexto que não a escola”. Ainda por cima, refere Celestina Gomes, o trabalho é bem feito. Prova disso são os elogios do actor profissional Virgílio Castelo aquando da representação da peça O Avarento, de Molière, em 2008. O actual responsável pela ficção da SIC elogiou “a inteligência e o ritmo dado a um texto difícil”.



Dança é também uma forma de convivo no grupo All for Dance

“Muitos dos amigos que tenho hoje conheci na dança”
Maria João Martins Maia, com 23 anos, é professora de dança moderna. Natural de Santo Tirso, a professora dá aulas amadoras em São Martinho do Campo, em Riba de Ave, em Vila das Aves e em Vizela. Começou a formar-se num ginásio, com o professor Simão e a professora Salomé, onde mais tarde começou a dar aulas.

De aluna a professora, Maria João Maia destaca o convívio com os seus alunos como uma grande motivação para dar aulas. A professora refere que lidar com crianças é uma paixão, para além da música e da dança.


Os elos de ligação que se criam nas aulas são responsáveis pelas amizades que Maria João Maia cria com os alunos ao longo dos anos. 

A professora de dança valoriza não só a relação com os alunos mas também com os pais e com a família em geral. O sentimento de comunidade, de grupo é muito forte.
Mas não são só os miúdos que dançam, os graúdos também têm aulas de dança moderna. A dança é para os seniores “ uma forma de passar o tempo” e de “conviver com as pessoas”, explica Maria João Maia.
Os recursos financeiros para a preparação dos espectáculos, roupas e penteados, são solucionados entre a professora e os pais.

Alunos e professora são assim unidos pela dança, reforçando o sentido de comunidade.

Reportagem: Amadorismo sobrevive como construtor de laços afectivos

Em Portugal, o amadorismo encontra-se implementado em todo o país. Grupos folclóricos, corais, teatrais ou desportivos existem em todos os lugares, envolvendo jovens e velhos, muitas vezes promovendo o encontro geracional.

Os recursos são escassos, com a sobreviviência dos diferentes conjuntos a estar, muitas vezes, exclusivamente dependente do poder local, ou seja, autarquias e juntas de freguesia. A iniciativa privada pouco conta para a actividade cultural amadora. No entanto, a principal forma de sobrevivência é o auto-financiamento. O grupo de dança All for Dance é um dos exemplos da dependência da iniciativa dos próprios membros, até porque o objectivo do conjunto é o convívio, a descontracção e a dança. Já o grupo de teatro Máscaras, da Escola Secundária de Paços de Ferreira, ostenta a independência como uma das imagens de marca. Segundo Celestina Gomes, encenadora, "a auto-suficiência é uma das características dos espectáculos que organizamos, mas quando somos convocados, por exemplo, pela autarquia, esta tem-nos sempres garantido e pago todas as condições e despesas".


O recurso a cenários minimalistas é característico do Máscaras
Foto por Pedro Moura

Os grupos amadores existem pelo simples gosto dos seus membros. No grupo de teatro escolar de Paços de Ferreira, nem as encenadoras Maria José Dias e Celestina Gomes, nem os alunos, têm formação teatral específica. No entanto, o nível de exigência é muito elevado. "Outra das características do nosso grupo é o facto de escolhermos sempre textos clássicos, difíceis, e de nunca os alterar", avançou Maria José Dias. Celestina Gomes lamenta que a formação Máscaras faça um serviço público, mas não seja visto como tal pelo público, isto porque os textos representados exigem um esforço de reflexão por parte da audiência. Os espectadores dos grupos amadores esperam actuações mais ligadas à cultura popular e popularizada. A apresentação de trabalhos de base erudita faz com que haja, por vezes, um certo afastamento em relação aos conjuntos que procuram inovar. Esta é a opinião de Carolina Araújo, membro do grupo coral da Associação de Professores e Educadores de Amares.

O desporto é uma das principais actividades amadoras. Os clubes de futebol destacam-se pelo número de praticantes que conseguem captar e pela popularidade dos eventos desportivos. Por exemplo, algumas equipas amadoras, como o Sport Comércio e Salgueiros, são capazes de atrair mais gente do que a maioria dos clubes profissionais. O clube nortenho recebe, em média, duas mil pessoas por jogo. Não tem sequer um estádio próprio e joga em Matosinhos, sendo o clube natural de Paranhos, concelho do Porto. Segundo os dados oficiais da Liga de Futebol, apresenta uma média de espectadores superior a três clubes da Liga Sagres na época 2009/2010 (Naval, Nacional e Paços de Ferreira). No entanto, aqui também é o puro gosto pelo futebol que move os atletas amadores. Estes têm que conciliar a vida profissional com a modalidade e os sacrifícios, por vezes, são muitos. Pedro Nogueira, ex-jogador amador, fala, por exemplo, das grandes viagens que obrigam os atletas a acordar de madrugada.


Sport Comércio e Salgueiros, fundado em 1911
Fonte: futebolformacaoiniciados.blogs.sapo.pt

Um aspecto une todas os grupos visitados pelo Épóblogue: a união e os laços humanos que se estabelecem pela prática de uma actividade amadora.

  • All for Dance - um grupo de dança de uma zona rural pode ser muito mais do que folclore.
  • Máscaras - a representação de textos clássicos ajuda alunos no desempenho escolar.
  • Desporto - a prática das actividades amadoras reflecte a organização social de Portugal.